domingo, 31 de julho de 2011

Fonema e símbolo gráfico (letra) – Primeira parte da Parte I

Há, sem sombra de dúvida, uma diferença entre o som (fonema) e a letra (símbolo gráfico). Um prova inconteste é o fato de a fala vir antes da escrita. Assim, como sabemos, sem a ajuda de qualquer divindade, primeiro aprendemos a falar e, depois, a escrever. No caso, escrever corretamente, o que é bem mais difícil. Numa entrevista a um programa de uma senhora da terceira idade (talvez quarta, pelo tempo em que perdura no vídeo...), o jornalista Ricardo Boechat pronunciou “ineksoravelmente”.

Como se pode ver, e este erro é muito comum, pois, por “osmose fônica’, de tanto se ouvir um erro comete-se o mesmo erro. Uma doutora em literatura, professora da minha filha, lá na UFG (Universidade Federal de Goiás), também teimou com a pobre menina que a forma certa era assim. Sorte que já havia ensinado a ela (minha filha) a pronúncia correta, que é “inezorável”.

Por que peguei este exemplo? Porque é muito comum as pessoas não saberem a pronúncia correta de um símbolo gráfico como fonema, ou melhor, de um fonema, que é o mais adequado, em sua representação gráfica. Vejamos: a palavra se grafa com a letra X (inexorável), apenas um símbolo gráfico para representar um som. Só que, em nossa língua, como em muitas outras, o que está grafado nem sempre tem o som que aparenta.

O caso do X é emblemático, serve para demonstrar várias situações daquilo que aqui pretendemos esclarecer. Por exemplo:

Em inexorável, o X tem som de /z/ (usam-se as duas barras para representar o som efetivo que se pronuncia);

Em expedição, o X tem som de /s/;

Em enxame, o X tem som de /ch/ (aqui uso esta forma apenas para facilitar o entendimento, pois há um outro símbolo gráfico convencionado que representa este som específico);

Em excesso, e muita gente não sabe, trata-se de um dígrafo (que é um único som representado por dois símbolos gráficos, ou letras, como em carro, massa, chama, ninho, consciência...). Logo, esse X tem o som de /s/, pronunciando-se, corretamente, “ecesso”, pois o X funde-se com a letra c, mas o som é de /s/ (como em sinal, signo, sociedade...).

Mais uma vez, torna-se fundamental compreender a distinção entre fonema e letra, porque os sons são representados, foneticamente, de outra forma. Assim, para que sejamos mais claros, grafa-se casa com a letra s, mas, foneticamente, será /kaza/, exatamente porque interessa apenas a forma que o falante usa, o som que emite ao se expressar verbalmente (isto é, usando palavras). Seria o caso de se perguntar por que o s entre vogais, quase sempre, tem som de /z/? Somente um estudo mais aprofundado sobre a formação das palavras poderia nos explicar. Como indagar, também, por que não escrevemos tal qual falamos... Talvez, porque haja uma série de variações e nuances nas formas de expressar a fala. Isto parece muito nítido quando ouvimos uma mesma palavra pronunciada por diferentes pessoas, com sotaques e formações culturais distintas, e até mesmo aqueles com problemas fisiológicos na própria emissão dos sons. (Ex.: porta, póórta, polta...)

Esse tipo de ocorrência gera uma série de distorções na pronúncia, e muitas pessoas, algumas até com um certo ar de domínio linguístico, cometem os chamados “erros crassos” (grosseiros), porque banais, porque, pressupostamente, deveriam estar superados com a evolução do aprendizado da língua.

Estão nesta classificação as pronúncias das duas letras de determinados dígrafos, como nascer (o correto é nacer), consciência (conciência), exceção (eceção). É bom que não se confunda dígrafo com encontro consonantal. Basta lembrarmos que, no primeiro caso, as duas letras geram apenas um som, no segundo têm sons autônomos, próprios. Como não se estuda etimologia, nem latim, nem grego, ficamos à mercê de nossa memória gráfica para não cometer deslizes.

Apenas para ficar no caso do X, existe um outro problema com a “letra” na situação onde a sua representação fonética corresponde a dois sons, como é o caso de táxi (/ks/), fixo ((/ks/), tóxico (/ks/), expo (/ks/).

Para não forçar muito a barra, voltaremos, mais tarde, com outros aspectos práticos para um melhor entendimento dessas questões.

RM

quarta-feira, 27 de julho de 2011

E a Norma... ainda é culta?

Frequentemente (sem o trema), aliás, muito frequentemente, deparamo-nos com problemas de escrita na expressão verbal. Não que o domínio da língua seja realmente uma tarefa fácil, mas, convenhamos, há uma profusão de erros crassos, agora, evidenciados com a febre, ou mania, de todos quererem dizer algo sobre alguma coisa nis novos espaços virtuais. Mesmo não sendo um especialista no assunto, isto é, possuir uma formação sólida e continuada sobre os mais diversos aspectos que envolvem, minimamente, a grafia correta das palavras, pois, elas, as palavras, ainda são o principal instrumento da comunicação humana, atrever-me-ei (putz!) a postar (imprimir na tela) algumas observações que poderão, se é que as pessoas possam assim considerar, ajudar a corrigir os erros e tornar a expressão mais condizente com aquilo que se designou por "língua padrão". Até que se prove o contrário, mesmo levando em conta correntes mais "flexíveis" de experts, as regras gramaticais orientam a contrução da própria manifestação do pensamento. Dessa forma, como a escrita nada mais é do que uma das nossas formas de linguagem, com suas especificidades, vamos iniciar esta jornada procurando a simplicidade e a criatividade para um melhor entendimento das questões aqui abordadas. Esperamos contribuir para a propagação das formas corretas de se grafar palavras, que representam, sempre, ideias (sem acento), sentimentos, pensamentos, relatos ou qualquer outro nível de expressão. O sentido estará sempre em jogo, pois decorre exatamente dessas mesmas contruções sintático-semânticas.
RM